O corpo humano às vezes parece um enigma já decifrado. A ciência descreveu as suas rotas internas, deu nome às moléculas e criou áreas inteiras de estudo para explicar o que acontece dentro das células.
Ainda assim, de tempos em tempos surge uma descoberta que deixa claro o quanto ainda falta compreender.
Um estudo recente do Walter and Eliza Hall Institute of Medical Research (WEHI) fez exatamente isso ao revelar um processo oculto dentro das nossas células - e, com isso, questionar décadas de compreensão biológica.
Como o corpo armazena açúcar
Há muitos anos, os livros descrevem de forma consistente como o organismo lida com o açúcar: a glicose entra no sistema e, quando há excesso, esse excedente é estocado como glicogênio no fígado e nos músculos.
Quando o corpo precisa de energia, o glicogênio é quebrado novamente para ser usado. Tudo parecia definido, estável e bem compreendido.
Essa impressão de “assunto encerrado”, porém, acaba de mudar.
Surge uma via escondida
Pesquisadores do WEHI identificaram um segundo sistema que controla o glicogênio. Não se trata de um pequeno ajuste na explicação tradicional, mas de um mecanismo independente que funciona em paralelo ao já conhecido.
“É bem provável que os livros de biologia precisem ser atualizados por causa das nossas descobertas”, afirmou o professor David Komander, autor correspondente do estudo.
“Descobrimos uma segunda via na qual o glicogênio pode ser regulado diretamente - provavelmente sob demanda.”
A ubiquitina quebra a própria regra
O centro da descoberta é uma molécula chamada ubiquitina. Há muito tempo, cientistas reconhecem a ubiquitina como um marcador que se liga a proteínas e sinaliza a sua degradação, desempenhando um papel importante na manutenção da saúde celular.
O inesperado é que este estudo mostra outra coisa: a ubiquitina também pode se ligar ao glicogênio - que é um açúcar, e não uma proteína.
Isso contraria uma suposição antiga na biologia. Por décadas, a ideia predominante era que a ubiquitina atuava apenas com proteínas.
“A ubiquitina é realmente um herói sem destaque que tem trabalhado silenciosamente nos bastidores todo esse tempo, mantendo-nos vivos”, disse o Dr. Simon Cobbold, coautor do estudo.
Um problema de visibilidade
Por que isso ficou oculto por tanto tempo? A explicação está na tecnologia. Os cientistas conseguiam detectar ubiquitina em proteínas, mas não em açúcares.
Como as ferramentas necessárias para observar essa interação não existiam, a equipa criou uma. Eles desenvolveram um método chamado NoPro-clipping, que utiliza espectrometria de massa para detectar ubiquitina ligada a moléculas que não são proteínas.
Com isso, os pesquisadores conseguiram enxergar algo que, ao que tudo indica, sempre esteve presente, mas permanecia fora do alcance.
“Sem as nossas ferramentas e o nosso método, esse processo notável teria permanecido invisível”, afirmou o Dr. Cobbold.
“Essa é a beleza do NoPro-clipping - ele está nos permitindo estudar um conjunto de moléculas que o campo da ubiquitina ignorou durante todo esse tempo.”
Ubiquitina e glicogênio: uma nova forma de controlar o açúcar no corpo
Depois de terem o método adequado em mãos, a equipa encontrou mais surpresas. A ubiquitina também aparecia ligada a outras moléculas, como glicerol e espermina - e elas também não são proteínas.
“Nossa descoberta está reescrevendo as regras fundamentais da biologia e da sinalização por ubiquitina. E tenho certeza de que só arranhamos a superfície”, disse Marco Jochem, primeiro autor do estudo.
Isso sugere que o papel da ubiquitina pode ser muito mais amplo do que se imaginava até agora.
Para entender o funcionamento desse processo, os pesquisadores observaram ratos em condições diferentes. Quando os animais estavam alimentados, os níveis de glicogênio permaneciam elevados. Quando estavam em jejum, os níveis de glicogênio caíam à medida que o organismo recorria à energia armazenada.
Durante essa queda, aumentavam as “etiquetas” de ubiquitina no glicogênio. Esse padrão indicou que a ubiquitina participa ativamente da regulação da quebra do glicogênio.
E, quando os pesquisadores elevaram artificialmente a ligação da ubiquitina, os níveis de glicogênio diminuíram ainda mais. Isso reforçou que o fenômeno não é aleatório, e sim controlado.
Implicações para a saúde humana
O glicogênio tem um papel central na saúde. O seu acúmulo em excesso está associado a condições como diabetes, obesidade e doença hepática gordurosa. Também existem doenças genéticas raras em que a regulação do glicogênio falha por completo.
Muitas terapias atuais atuam de forma indireta: ajustam hormonas ou alteram a resposta à insulina, em vez de mirar o próprio glicogênio.
“Novos medicamentos empolgantes - como o Ozempic - estão transformando a forma como controlamos o açúcar no sangue, de maneira indireta, por meio da regulação hormonal”, disse o professor Komander.
“Sem conseguir regular o próprio glicogênio, fica difícil combater seu acúmulo - a causa raiz de muitas doenças.”
“É por isso que nosso estudo é empolgante. Encontramos uma forma de ir direto à fonte.”
Tecnologia e ciência continuam a evoluir
Essa descoberta pode abrir novos caminhos terapêuticos. Uma maneira direta de controlar o glicogênio pode beneficiar pessoas com doenças metabólicas e também pacientes com Doenças de Armazenamento de Glicogênio.
Os pesquisadores ainda estão nas fases iniciais, e aplicações clínicas devem levar tempo. Mesmo assim, o achado estabelece uma base sólida para tratamentos futuros.
O estudo também deixa uma lição importante: até sistemas muito estudados podem esconder camadas desconhecidas, e os limites da tecnologia frequentemente determinam o que a ciência consegue observar.
Quando surgem novas ferramentas, aparecem detalhes capazes de derrubar crenças mantidas por muito tempo.
Neste caso, uma molécula que parecia ter uma função única agora se mostra muito mais versátil. A ubiquitina deixa de ser apenas um marcador de proteínas e pode fazer parte de um sistema mais amplo, capaz de controlar múltiplos tipos de moléculas.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário