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Fingir brincadeiras na infância está ligado a melhor saúde mental no futuro.

Criança fantasiada de rei brinca enquanto mulher usa estetoscópio brincando de médico em sala colorida.

Crianças brincando muitas vezes parecem viver em mundos próprios. Uma colher vira uma varinha mágica, e uma caixa se transforma num foguete. À primeira vista, essas cenas podem parecer simples, até banais. Só que pesquisas recentes indicam que elas podem influenciar de forma duradoura a saúde mental infantil.

Um estudo amplo realizado na Austrália acompanhou crianças por vários anos. Os pesquisadores observaram que o faz de conta no início da vida se relaciona a melhores desfechos emocionais mais adiante na infância.

O que parece apenas imaginação pode, na prática, contribuir para a forma como as crianças lidam com a vida conforme crescem.

Por que a brincadeira de faz de conta importa

A brincadeira de faz de conta começa cedo. Entre 2 e 3 anos, crianças “alimentam” bonecas, encenam rotinas do dia a dia e criam histórias. Com isso, elas exploram o mundo do jeito delas.

Há muito tempo pesquisadores defendem que esse tipo de brincadeira ajuda as crianças a elaborar emoções. Trata-se de um espaço seguro para representar sentimentos e situações.

Essa ideia vem das bases da psicologia clássica e segue orientando estudos atuais.

Acompanhando crianças ao longo do tempo

A pesquisa analisou dados de mais de 1.400 crianças do Longitudinal Study of Australian Children. Elas nasceram em 2004 e foram acompanhadas por anos.

Quando tinham entre dois e três anos, educadores avaliaram o faz de conta de cada criança. Foram considerados comportamentos de faz de conta simples, o uso simbólico de objetos e a encenação de papéis com outras crianças.

Depois, os pesquisadores verificaram indicadores de saúde mental aos quatro a cinco anos e aos seis a sete anos. Para isso, utilizaram um instrumento padronizado preenchido tanto por educadores quanto por cuidadores.

Um padrão claro apareceu na brincadeira de faz de conta

Os resultados mostraram uma tendência consistente. Crianças com habilidades mais fortes de faz de conta apresentaram menos problemas de saúde mental posteriormente.

Isso incluiu menos dificuldades internas, como ansiedade e retraimento. Também incluiu menos comportamentos externos, como agressividade.

A associação permaneceu mesmo após o ajuste para fatores como renda, habilidade linguística e qualidade do relacionamento entre pais e filhos.

“Nós descobrimos que diferenças na habilidade de faz de conta muito cedo na vida estavam ligadas a diferenças nos desfechos de saúde mental vários anos depois”, observou a Dra. Fotini Vasilopoulos, da Universidade de Sydney.

Colocando hipóteses antigas em xeque

Os pesquisadores esperavam que um fator específico explicasse essa relação. A hipótese era de que a regulação emocional funcionaria como uma ponte.

A lógica parecia direta: a criança “treina” emoções no faz de conta e, mais tarde, consegue administrar melhor as emoções na vida real.

No entanto, os dados não confirmaram essa explicação. A regulação emocional não foi responsável pela conexão observada.

“A regulação emocional – a capacidade de gerenciar e responder às emoções – costuma ser apontada como o mecanismo que explica como a brincadeira precoce influencia a saúde mental mais tarde, mas não foi isso que encontramos”, disse a Dra. Vasilopoulos.

“Quando a regulação emocional foi levada em conta, a associação não se sustentou, sugerindo que outros processos do desenvolvimento, ainda pouco compreendidos, possam estar envolvidos.”

Possíveis conexões no cérebro

Se não é a regulação emocional, então o que poderia explicar essa relação? Uma hipótese vem da cognição incorporada (embodied cognition). Esse conceito propõe que o pensamento está fortemente ligado às ações do corpo.

Durante o faz de conta, as crianças encenam situações usando movimentos e gestos. Exames de neuroimagem indicam que regiões motoras permanecem ativas mesmo quando as ações são apenas imaginadas.

Algumas dessas áreas cerebrais também se associam a condições como ansiedade e TDAH. Isso abre a possibilidade de que o faz de conta ajude a fortalecer sistemas neurais importantes.

O estudo se apoia em evidências anteriores. Pesquisas passadas já tinham encontrado associação entre brincadeiras não estruturadas e melhor saúde mental. Habilidades de brincadeira com pares também previram desfechos positivos mais tarde.

Agora, o faz de conta aparece como um fator próprio. Não se trata apenas de brincar por mais tempo. A diferença está no jeito de brincar.

O papel das escolas

Muitos sistemas de educação infantil incluem o faz de conta em seus referenciais. Ainda assim, na prática, esse espaço frequentemente diminui ou é substituído.

Atividades mais estruturadas e o tempo de tela passaram a ocupar mais lugar. Já a brincadeira livre e imaginativa recebe menos atenção.

“Esses achados são especialmente relevantes hoje, quando muitas crianças passam mais tempo em telas, participam de mais atividades estruturadas e têm menos oportunidades de brincadeiras livres e imaginativas”, afirmou a Dra. Vasilopoulos.

“O faz de conta é fácil de ser negligenciado, mas tem um papel importante no apoio à saúde mental das crianças.”

Formas simples de estimular o faz de conta

Apoiar o faz de conta não exige ferramentas especiais. Ações simples já podem ajudar.

Deixe a criança conduzir a brincadeira. Evite transformar tudo em lição. Participe sem tomar o controle. Em vez de dar instruções, responda com curiosidade.

“O faz de conta não precisa ser complicado nem instrutivo”, observou a Dra. Vasilopoulos.

“Usar esse tipo de envolvimento gentil, guiado pela criança, pode ser uma maneira prática de desenvolver as habilidades de faz de conta que nossa pesquisa associa a melhores desfechos de saúde mental mais tarde na infância.”

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