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Por que o início de abril apresenta maior risco de AVC?

Homem com medidor de pressão senta-se à mesa com semblante preocupado, vendo resultados de exames médicos.

A mudança para o horário de verão funciona como um pequeno jet lag para o corpo. Muita gente percebe apenas mais cansaço e irritação. Só que análises recentes indicam algo mais sério: nos primeiros dias do início de abril, os AVCs aumentam de forma mensurável - principalmente em certos grupos de risco. Entenda o que pode estar por trás desse efeito, quem precisa de atenção redobrada e quais sinais de alerta ninguém deve ignorar.

Horário de verão e AVC: um teste de estresse para o organismo

Na madrugada em que os relógios são adiantados, perdemos oficialmente só uma hora de sono. Para o organismo, porém, o impacto costuma ser maior. O ciclo natural de sono e vigília - o chamado ritmo circadiano - fica desalinhado. Hormonas, pressão arterial, frequência cardíaca: nada disso “vira a chave” de um dia para o outro.

Há algum tempo, investigadores levantam a hipótese de que essa pequena troca de horário sobrecarrega a circulação mais do que a maioria imagina. Por isso, uma grande análise feita na Finlândia examinou com atenção a frequência de AVCs na semana após a mudança de horário - e os resultados chamam a atenção.

"Os primeiros dois dias após o início do horário de verão mostram um aumento perceptível de AVCs - sobretudo em pessoas idosas e em pacientes com cancro."

O que a pesquisa na Finlândia encontrou

A equipa de investigação na Finlândia analisou dados hospitalares por mais de dez anos. O foco foram os AVCs isquémicos (enfartes cerebrais), que acontecem quando um coágulo bloqueia uma artéria no cérebro.

Para isso, os investigadores compararam:

  • mais de 3.000 pacientes com AVC na semana após a mudança para o horário de verão com
  • mais de 11.000 pacientes com AVC internados duas semanas antes ou duas semanas depois.

Da análise, surgiram alguns pontos importantes:

  • O horário do dia em que os AVCs acontecem sofre um pequeno deslocamento.
  • Um pico claro aparece no dia 1 e no dia 2 depois da mudança de horário.
  • Alguns grupos apresentam um risco adicional significativamente maior.
Grupo Alteração do risco de AVC após a mudança para o horário de verão
Pessoas com cancro ca. 25 % maior risco
Pessoas com mais de 65 anos ca. 20 % maior risco
População geral aumento leve, mas mensurável

Um dado tranquilizador: nessa semana, não houve aumento nas mortes por AVC dentro do hospital. Ou seja, em geral, quem é atendido continua a receber tratamento agudo eficaz. Ainda assim, cada minuto conta - e reconhecer sinais iniciais mais cedo pode mudar de forma decisiva o desfecho após um AVC.

Por que a mudança de horário pode aumentar o risco para o cérebro

O mecanismo exato ainda não está completamente esclarecido, mas há vários fatores plausíveis:

  • Privação de sono: mesmo uma hora a menos pode elevar, no curto prazo, a pressão arterial, as hormonas do estresse e marcadores de inflamação.
  • Pico de pressão arterial fora de hora: normalmente, a pressão sobe pela manhã. Quando relógio social e ritmo interno não batem, os vasos podem sofrer mais.
  • Arritmias: em pessoas com fibrilação auricular ou outras alterações do ritmo, a falta crónica de sono pode favorecer a formação de coágulos no coração.
  • Estresse geral: começar o trabalho “como se fosse uma hora mais cedo”, descansar menos e viver com mais correria também pesa sobre coração e vasos.

Em pessoas idosas e em pacientes com cancro, vasos e coração muitas vezes já estão comprometidos. Com a combinação de menos sono e confusão do relógio biológico, cresce a chance de um coágulo já existente se desprender - ou de um novo se formar.

Principais sinais de alerta de um AVC

Um AVC é sempre uma emergência absoluta. Cada minuto influencia quanto tecido cerebral pode ser preservado e quão graves podem ser as sequelas. Alguns sinais iniciais parecem inofensivos, mas são perigosos.

"Regra: se surgirem de repente paralisias, alterações na fala ou na visão - ligue imediatamente para a emergência, não espere."

Sintomas típicos que exigem suspeita imediata

  • Fraqueza ou dormência súbita no rosto, num braço ou numa perna - muitas vezes só de um lado do corpo.
  • Assimetria facial, como o canto da boca caído de um lado.
  • Alterações visuais: perda de campo visual de um lado, “cortina preta” num olho, visão dupla ou piora forte e repentina da visão.
  • Problemas na fala: fala arrastada, dificuldade para encontrar palavras, incapacidade de falar ou sensação de não compreender bem o que os outros dizem.
  • Alterações de sensibilidade: toque, calor ou dor quase não são percebidos de um lado do corpo.
  • Dor de cabeça muito forte e incomum sem causa evidente, muitas vezes com náusea ou vómitos.
  • Tontura, perda de equilíbrio, quedas repentinas, marcha insegura ou falhas de coordenação.
  • Mudanças de consciência, desde sonolência intensa até perda de consciência.

Em muitos países, usa-se a regra mnemónica FAST (Face, Arm, Speech, Time). Em português, pode ajudar pensar em “ROSTO – BRAÇO – FALA – TEMPO”: rosto torto? braço cai? fala alterada? Então é tempo de pedir ajuda - no Brasil, acione o 192.

Quem deve ter atenção redobrada nos primeiros dias de abril

O aumento de risco após o começo do horário de verão não afeta todos da mesma forma. Vale ficar especialmente atento se você se enquadra em algum destes grupos:

  • pessoas com mais de 65 anos
  • pessoas com cancro
  • pessoas com arritmias já conhecidas (por exemplo, fibrilação auricular)
  • pessoas com hipertensão, diabetes ou níveis muito altos de gorduras no sangue
  • fumantes
  • pessoas com excesso de peso

Quem faz parte desses grupos e, nos primeiros dias após a mudança de horário, se sente anormalmente cansado, confuso ou “fora do eixo” deve observar o corpo com mais cuidado. Se aparecer qualquer sinal de AVC listado acima, não é aceitável esperar “até amanhã”.

Como aliviar o impacto no corpo em torno da mudança para o horário de verão

Ninguém consegue impedir a troca do relógio, mas dá para reduzir como o corpo reage. Algumas medidas práticas:

  • Ajustar antes: nos três dias anteriores à mudança, adiantar a hora de dormir em 15–20 minutos a cada noite.
  • Manter consistência e deitar mais cedo: na semana seguinte, ir para a cama cerca de meia hora antes do habitual.
  • Mais luz pela manhã: ao acordar, procurar luz natural de imediato (mesmo junto à janela) para ajudar o relógio interno.
  • Reduzir telas à noite: a luz forte de telemóvel e computador atrasa a produção de melatonina.
  • Vigiar a pressão arterial: pessoas com hipertensão devem medir com mais frequência nos primeiros dias de abril e discutir valores fora do padrão com a equipa de saúde.
  • Evitar “experiências”: nos primeiros dias, é melhor não exagerar no álcool e evitar refeições muito pesadas e tardias.

Contexto importante: AVC isquémico vs. AVC hemorrágico

A análise finlandesa concentrou-se nos AVCs isquémicos, ou seja, problemas de circulação provocados por obstrução de um vaso - que representam a maior parte dos casos. Existe também a forma hemorrágica, em que um vaso se rompe no cérebro e o sangue extravasa para o tecido cerebral.

As duas formas surgem de modo súbito e podem causar sintomas parecidos. Fatores como hipertensão, tabagismo ou excesso de peso elevado aumentam o risco em ambas. O vínculo com a mudança para o horário de verão, porém, parece atingir sobretudo o tipo isquémico, já que formação de coágulos e picos de pressão têm papel central nesse cenário.

Por que até aumentos pequenos merecem ser levados a sério

Para pessoas saudáveis, o risco extra individual ligado ao ajuste do horário de verão é limitado - mas, no conjunto da população, ele aparece. Até um aumento de 10 ou 20 por cento, quando aplicado a centenas de milhares de pessoas com doenças prévias, significa mais emergências - e mais vidas que mudam completamente de um dia para o outro.

Quem reconhece os sinais reage com mais rapidez. E quem cuida do sono e enfrenta fatores como hipertensão, tabagismo ou estresse extremo reduz o risco de AVC não apenas no início de abril, mas ao longo do ano inteiro.

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