Se você convive com um animal de estimação, é bem possível que às vezes sinta que vocês quase conseguem “ler” um ao outro.
Talvez você já tenha percebido seu pet reagindo ao seu estado emocional. E os animais também parecem ter uma capacidade impressionante de notar mudanças no nosso estado de saúde.
Mesmo assim, pesquisas recentes indicam que muitos tutores de cães não são tão bons quanto imaginam para identificar quando seus animais estão com dor. Isso pode trazer consequências relevantes para o comportamento, a saúde e o bem-estar dos nossos pets.
Eu, por exemplo, convivo com enxaqueca e fico impressionada com a forma como meus cães lidam comigo quando uma crise aparece. Eles parecem reconhecer a dor, o sofrimento e a incapacidade que acompanham a enxaqueca e passam a interagir de forma mais delicada do que o habitual.
E eu gostaria de acreditar que, quando a situação se inverte - e eles ficam doentes ou com dor - eu também consiga perceber.
Então, como identificar se o seu pet está com dor e o que fazer caso você suspeite disso?
Sinais de dor em cães
É comum imaginar que um animal com dor vai reclamar, fazer barulho e apresentar sinais físicos evidentes. Isso pode acontecer, por exemplo, em casos de dor aguda causada por uma lesão grave.
Mas, com frequência, os animais mascaram a dor como um mecanismo de sobrevivência, e muitos sinais aparecem apenas como mudanças discretas de comportamento.
Nós, humanos, até conseguimos reconhecer estados emocionais básicos nos animais - como raiva, medo ou alegria - observando expressões faciais e corporais. Porém, tendemos a ter mais dificuldade para conectar essas pistas a emoções mais complexas, como dor, ansiedade e frustração.
Um estudo publicado recentemente avaliou o quão bem as pessoas conseguem reconhecer sinais de dor em cães. A pesquisa foi feita por meio de um questionário online respondido por 530 tutores de cães e 117 pessoas que não tinham cães.
Os participantes receberam uma lista com 17 tipos de comportamento canino. Com base no conhecimento e na experiência prévios, eles precisavam ordenar o quanto achavam provável que cada comportamento indicasse dor. Na prática, os 17 comportamentos listados eram indicativos de que o cão estava com dor.
Entre os sinais apresentados havia alterações bem perceptíveis, como levantar a pata de forma hesitante, brincar menos e mudanças na personalidade. Nesses casos mais “chamativos”, os participantes acertaram ao associar essas mudanças à dor.
O problema apareceu nos sinais sutis: bocejar, lamber os lábios e o nariz e alterações nas expressões faciais - como desviar o olhar e piscar mais. Todos esses são alertas de que um cão pode estar sofrendo.
Um achado particularmente relevante foi que pessoas sem cães tiveram maior probabilidade de reconhecer que “congelar” (ficar imóvel) ou virar a cabeça e o corpo para longe podem estar associados à dor do que os próprios tutores. Isso sugere que alguns tutores podem acabar relaxando demais a atenção ao observar o comportamento do seu cão no dia a dia.
A ligação entre dor e comportamento em cães
No estudo, os participantes também tiveram de avaliar o quanto a dor poderia ser relevante em três casos descritos por escrito sobre comportamento canino. Eles não foram informados, mas dois dos casos estavam relacionados a condições dolorosas - um com sinais claros e outro com sinais mais discretos. O terceiro não tinha relação com dor.
Quando o caso trazia sinais evidentes de dificuldade de movimento - como mancar, pular apoiando menos uma das pernas e levantar as patas - os tutores de cães consideraram mais provável que houvesse dor.
Esse reconhecimento foi maior entre tutores do que entre não tutores. Já no caso em que os sinais eram mais discretos (inquietação à noite e “seguindo como sombra” os membros da família), não houve diferença entre tutores e não tutores na capacidade de identificar o comportamento como possível sinal de dor.
Ainda assim, tutores que já tinham vivido a experiência de ter um pet com uma condição dolorosa pareceram mais aptos a reconhecer sinais de sofrimento. Isso valeu tanto para mudanças óbvias de movimento quanto para aspectos de linguagem corporal. O resultado sugere que a experiência prévia pode ajudar a desenvolver habilidades de leitura do comportamento dos pets.
O que chama atenção nesse estudo é que existiram algumas diferenças pontuais entre tutores e não tutores ao reconhecer sinais de dor. Porém, ter um cão não foi garantia de que a pessoa identificaria melhor os indicadores sutis.
Pesquisas anteriores também mostram que diferentes espécies podem expressar dor de maneiras distintas. Coelhos, por exemplo, muitas vezes ficam imóveis - algo que pode ser interpretado como uma reação de medo.
Além disso, escalas de caretas (grimace scales) vêm sendo usadas cada vez mais para avaliar dor em várias espécies, incluindo gatos e cavalos. Essas ferramentas se baseiam em pequenos movimentos musculares do rosto, como o estreitamento dos olhos.
O que fazer se você achar que seu pet está com dor?
Perceber sinais de dor no seu pet é essencial para agir rápido. Isso também pode diminuir o risco de mordidas, que frequentemente estão relacionadas a cães lidando com dor crônica.
A dor também pode aumentar a reatividade a sons: o cão pode se assustar, recuar ou latir intensamente diante de barulhos repentinos, incomuns ou altos.
Se você suspeitar que seu pet está com dor por causa de uma mudança repentina no comportamento ou na forma de se movimentar, procure orientação veterinária. A sensibilidade dolorosa pode aparecer de forma evidente - como mancar, ficar apático, demonstrar falta de vontade de se exercitar ou brincar -, mas é fácil deixar passar sinais mais discretos, como alteração no padrão de piscadas, pausas breves ou ficar imóvel.
As pesquisas indicam que tutores de cães devem ficar atentos a mudanças no sono, inquietação, maior “apego” (grude), além de lamber ou mastigar o próprio corpo de maneira incomum.
Até alterações na posição das orelhas, na qualidade e na textura do pelo, ou na forma como o pelo “assenta” sobre a pele podem apontar desconforto por trás do comportamento. Evitar ser tocado em áreas específicas do corpo também pode ser sinal de incômodo e merece investigação veterinária.
Por isso, se você estiver pensando que seu cão precisa de adestramento ou de acompanhamento com um comportamentalista por conta de uma mudança gradual ou repentina no comportamento, vale primeiro descartar a possibilidade de ele estar agindo diferente porque sente dor.
Jacqueline Boyd, Professora Sênior (Senior Lecturer) em Ciência Animal, Nottingham Trent University
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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