Os ursos-negros têm fama de comer praticamente tudo o que encontram pelo caminho - frutas silvestres, capins, bolotas, um peixe de vez em quando e até comida esquecida numa caixa térmica de acampamento deixada sem supervisão.
Mas o que acontece depois que toda essa comida “desce”? Que tipo de mundo microbiano se instala dentro de um animal que encara o chão da floresta como um bufê livre?
Um estudo novo foi direto a essa pergunta. Pesquisadores da North Carolina State University, em parceria com outras instituições, coletaram amostras do trato intestinal de 48 ursos-negros-americanos selvagens no leste da Carolina do Norte.
Os resultados colocam em xeque algumas ideias antigas sobre como funcionam os tratos digestivos de carnívoros.
Como funciona o intestino do urso-negro-americano
Apesar de o urso-negro comer majoritariamente plantas, o sistema digestivo dele lembra o de um animal carnívoro.
Eles têm um intestino delgado longo, um cólon curto e não possuem ceco - a estrutura que, em animais herbívoros, ajuda a quebrar fibras vegetais mais difíceis.
“American black bears (Ursus americanus) have a simple gut morphology and it doesn’t take long for food to pass through their system, which prevents regulation of the microbial ecosystem in the animal’s gut,” said Erin McKenney, corresponding author of the paper.
Em termos práticos, isso significa que o sistema imune do urso não tem tempo para reagir aos microrganismos que chegam junto com a comida. Aquilo que “pega carona” tende, em grande parte, a permanecer.
Micróbios intestinais refletem dieta e ambiente
“Coupled with the fact that bears eat an exceptionally wide variety of foods, this means the gut microbiome of black bears can be highly variable,” said McKenney. “And, in theory, this also means that a bear’s gut microbiome would reflect its environment.”
O objetivo do grupo foi justamente verificar se essa ideia se confirma e, se sim, até que ponto amostras do microbioma intestinal permitiriam inferir tanto o que ocorre no ambiente quanto o que os ursos estão comendo. “We wanted to see if this is actually true and, if so, the extent to which we can use gut microbiome samples to get insights into both what is happening in the bear’s environment and what the bears are eating,” McKenney says.
Para entender a dieta, os pesquisadores aplicaram uma técnica que funciona como uma “impressão digital” alimentar: diferentes alimentos deixam assinaturas químicas distintas no corpo, e esses sinais podem ser detectados nos pelos do urso.
Os dados indicaram que muitos animais apresentavam sinais compatíveis com milho. A interpretação foi que os ursos provavelmente estavam consumindo milho vindo de lavouras ou de iscas.
Naquela região, amendoins também são usados com frequência como isca. Ainda assim, nenhum urso mostrou sinais que correspondessem a amendoins - o que sugere que eles os evitaram.
A equipe também comparou machos e fêmeas. Os “sinais” alimentares foram muito semelhantes entre os sexos. Isso indica que machos e fêmeas estavam ingerindo quase os mesmos tipos de alimento, mesmo com a tendência de os machos se deslocarem mais.
Bactérias diferentes, funções parecidas
A maior parte das bactérias identificadas nos intestinos dos ursos se concentrou em dois grupos principais: Firmicutes e Proteobacteria.
Esses grupos apareceram em praticamente todas as amostras. Já Fusobacteria foi observado apenas em fêmeas, enquanto Acidobacteria surgiu somente em machos.
“Many of the findings were consistent with what we anticipated,” said Dorian Hayes, co-author who now works for the North Carolina Wildlife Commission.
Ao mesmo tempo, houve grande variação entre amostras. “The microbial communities we found in each gut microbiome were wildly variable across all of the samples.”
Ainda assim, a função prevista dessas comunidades microbianas se manteve muito estável de um urso para outro, apesar das diferenças nos táxons presentes: “We also found that, despite the highly variable taxa present in each microbiome, the predicted function of the microbial communities was very consistent from bear to bear.”
Bactérias com resistência a antibióticos
No cólon, seis gêneros foram os principais responsáveis pelas diferenças microbianas observadas, incluindo Escherichia-Shigella e Ochrobactrum, ambos já associados à resistência a antibióticos.
“It’s well-established that predators tend to have a lot of pathogens in their gut microbiomes, so we were prepared to find some pathogenic bacteria,” said McKenney.
O que surpreendeu foi o peso desses microrganismos resistentes: “But we were surprised to find that two of the most significant genera in the bear microbiomes are pathogens known to be resistant to antibiotics.”
A presença de fauna silvestre carregando micróbios resistentes pode favorecer a disseminação deles em paisagens compartilhadas com rebanhos e pessoas.
Micróbios ajudam ursos a acumular gordura
Os pesquisadores também observaram uma sucessão microbiana clássica entre faixas etárias, com indivíduos no primeiro ano de vida exibindo perfis claramente diferentes dos adultos.
“Another surprise was that the most dominant genus across all of the samples was a microbe known to be associated with infection and obesity in humans,” McKenney said.
“Many humans view obesity as bad, but contributing to obesity actually makes these microorganisms beneficial for bears, who want to pack on as much fat as possible to get through the winter.”
Ou seja: aquilo que, em humanos, pode parecer disbiose pode representar uma vantagem adaptativa para um animal que precisa praticamente dobrar o peso corporal antes da hibernação.
Ursos refletem mudanças ambientais
A mensagem central do estudo vai além da biologia do urso.
“Bears are fascinating, and the nature of their digestive system and feeding behavior means that they are essentially living biosensors of their environment,” said Diana Lafferty, co-author of the study from Northern Michigan University.
Segundo ela, o trabalho contribui para compreender melhor as nuances do microbioma intestinal e o que ele pode indicar não apenas sobre a saúde dos ursos, mas também sobre a saúde ambiental: “The work we’ve done here helps us better understand the nuances of what is happening in their gut microbiome, and what that can tell us about not only bear health but environmental health.”
E, embora o estudo tenha usado amostras intestinais, os resultados também podem ajudar a interpretar amostras microbianas obtidas de fezes de urso, acrescenta Lafferty: “And while this work was done using gut samples, these findings can also help us interpret microbial samples collected from bear feces,” adds Lafferty.
Esse detalhe é crucial para pesquisas futuras: coletar fezes é muito mais simples do que obter material de dentro do corpo, além de não causar dano ao animal.
Ursos revelam um ambiente em transformação
“Bears are expanding their range across much of the continental United States, and expanding our understanding of the microbial ecosystems in this species means that they could serve as a sentinel species for understanding changes in the environment,” Lafferty said.
O intestino de um urso-negro não é apenas um “cano” por onde a comida passa. Trata-se de um sistema complexo, habitado por inúmeros micróbios.
Esse sistema varia conforme a idade do animal, se é macho ou fêmea, o local onde vive e aquilo que consome.
Ao mesmo tempo, o microbioma intestinal também espelha o ambiente ao redor do urso, inclusive áreas onde há convivência com atividades humanas.
Essas observações reforçam que estudar o intestino de ursos pode ensinar não só sobre os próprios ursos, mas também sobre como animais e ambientes permanecem interligados em um mundo em mudança.
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