Pular para o conteúdo

Resíduos de medicamentos no esgoto estão se acumulando em peixes de água doce.

Pessoa usando luvas segura peixe na água de rio para análise ambiental, com frascos e comprimidos ao lado.

Peixes selvagens de um rio no Canadá, a jusante de uma estação de tratamento de esgoto, estão carregando antidepressivos e opioides no próprio organismo, segundo uma pesquisa recente.

O resultado indica que a água residuária tratada consegue levar vestígios do consumo humano de medicamentos para animais de água doce de maneiras que ainda não haviam sido registradas no país.

Medicamentos encontrados em tecido vivo de peixes no rio Grand

Em um trecho da bacia hidrográfica do rio Grand, no sul de Ontário, pequenos peixes conhecidos como dárteres estavam contendo substâncias químicas que, em tese, deveriam ter terminado com o uso humano.

A Dra. Diana M. Cárdenas-Soracá, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Waterloo, demonstrou que esses fármacos não estavam apenas na água: eles já haviam passado para o tecido vivo.

O registro observado não foi amplo nem aleatório, porque somente algumas das substâncias analisadas apareceram de forma recorrente - entre elas, fentanil, metadona, venlafaxina e um subproduto da venlafaxina.

Esse padrão, porém, deixa em aberto uma questão maior: detectar drogas no corpo dos peixes é apenas o ponto de partida para entender o que essa exposição provoca a jusante.

Moléculas de medicamentos escapam do tratamento

Revisões sobre a presença de fármacos na água indicam que o tratamento costuma reduzir as concentrações, mas nem sempre elimina todos os traços químicos.

A maioria dos sistemas é desenhada para remover resíduos humanos, nutrientes e microrganismos, enquanto moléculas pequenas de medicamentos podem permanecer misturadas na água liberada.

O efluente - a água tratada que sai da unidade - pode transportar muitas substâncias em níveis baixos. Como esses compostos chegam diariamente, até sobras mínimas podem sustentar uma exposição contínua para os animais que vivem a jusante.

Testando a exposição em peixes pequenos

Os dárteres deram à equipe uma forma de observar a exposição local com mais precisão, já que tendem a permanecer próximos de riachos pequenos e pedregosos.

Trabalhos sobre deslocamento constataram que os dárteres arco-íris ficam perto dos locais onde são marcados, o que os torna espécies sentinela - animais usados para sinalizar mudanças locais.

Pesquisadores de Waterloo coletaram dárteres arco-íris, dárteres de lado verde e dárteres de cauda em leque. Esses três peixes aparentados têm menos de 10 cm de comprimento.

O tamanho reduzido dificultou os testes, mas analisar indivíduos (em vez de amostras agrupadas) permitiu preservar diferenças entre sexos e espécies - detalhes que se perdem quando os tecidos são combinados.

Níveis a jusante aumentaram na água

A água abaixo da estação de tratamento apresentou mais resíduos de fármacos do que a água coletada a montante. Em amostras reunidas durante maio de 2024, 19 substâncias químicas diferentes foram detectadas na água tratada ou no rio.

Um subproduto de antidepressivo apareceu nas concentrações mais altas, muito acima das demais substâncias medidas na água.

Mesmo com quantidades muito pequenas, a exposição constante importa quando os peixes vivem naquele ambiente todos os dias.

O corpo dos peixes revelou padrões

No interior dos peixes, essas substâncias se acumularam ao longo do tempo, fazendo do organismo um registro mais claro do que uma única amostra de água.

À medida que respiram e se alimentam, traços mínimos desses compostos entram no corpo e começam a se concentrar.

De 26 substâncias testadas, quatro foram encontradas em todas as espécies e em todos os locais avaliados pelos pesquisadores.

Outros medicamentos surgiram de modo menos frequente, o que sugere que a exposição varia ao longo do rio e também com o tempo.

Machos apresentaram as maiores concentrações

Com frequência, dárteres machos carregavam concentrações mais altas do que as fêmeas - especialmente no ponto a jusante, onde a exposição foi mais intensa.

As fêmeas já haviam desovado, e a liberação de ovos pode retirar do corpo material rico em gordura.

Como alguns compostos tendem a se alojar em tecidos gordurosos, a desova pode reduzir as cargas medidas nas fêmeas naquela época do ano.

Assim, diferenças entre sexos alteram a interpretação da contaminação, sobretudo quando as amostras representam apenas um momento do ciclo reprodutivo.

Diferenças entre espécies de dárteres

Entre os machos comparados, os dárteres de cauda em leque apresentaram os maiores níveis a jusante de fentanil e venlafaxina.

Já os dárteres de lado verde mostraram concentrações menores, possivelmente porque um deslocamento maior reduziu o tempo passado na zona com fluxo de efluente mais forte.

O uso do habitat também influencia, pois peixes que vivem no fundo entram em contato com substâncias químicas pela água, pela alimentação e pelo contato com partículas do leito do riacho.

Essas diferenças entre espécies tornam o rio menos uniforme do que um teste de água, por si só, poderia sugerir a órgãos reguladores e a pesquisadores.

Muitas perguntas ainda ficam sem resposta

Detectar drogas não comprova que os peixes estavam doentes, e o estudo não avaliou diretamente comportamento ou reprodução.

Ainda assim, compostos neuroativos geram preocupação, porque os peixes dependem desses sistemas de forma contínua.

Pesquisas sobre antidepressivos já relacionaram a exposição a medicamentos a mudanças em alimentação, deslocamento, química do estresse e reprodução em diversos estudos com peixes.

Esses achados anteriores fazem com que os novos resultados em tecido funcionem como um sinal de alerta - e não como um veredito definitivo sobre dano.

É preciso monitoramento mais robusto

O pequeno porte dos peixes obrigou os cientistas a aprimorar a detecção, já que cada organismo fornecia pouco tecido.

Testes mais sensíveis também facilitam acompanhar contaminantes emergentes - substâncias recém-identificadas que reguladores talvez ainda não estejam monitorando.

“Esta pesquisa demonstra a importância de desenvolver métodos analíticos sensíveis para monitorar contaminantes emergentes e melhorar nossa capacidade de avaliar seu potencial de impactos em ecossistemas aquáticos”, disse Cárdenas-Soracá.

Segundo ela, os resultados devem estimular esforços contínuos para identificar e rastrear a ampla variedade de novos compostos químicos que entram no ambiente.

Análises da água, análises de tecido e a biologia dos peixes agora apontam para o mesmo problema: o esgoto tratado pode levar resíduos de medicamentos para a vida nos rios.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário