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Banhos quentes podem melhorar seu desempenho na corrida, diz estudo.

Homem sem camisa sentado na banheira, com tênis e relógio esportivo, em ambiente com vapor.

Durante décadas, corredores de elite viajaram pelo mundo para treinar em altitude.

Quando os níveis de oxigênio no ar são baixos, o corpo reage produzindo mais glóbulos vermelhos - as células encarregadas de transportar oxigênio pelo organismo.

Ao voltarem ao nível do mar, essa maior capacidade de transporte de oxigênio pode melhorar o desempenho de resistência.

Mas o treino em altitude tem um preço. Exige tempo fora de casa, investimento financeiro e viagens longas. Para a grande maioria dos corredores que estarão na largada da Maratona de Londres deste ano, isso simplesmente não é viável.

Por isso, em nossa pesquisa, começamos a procurar uma alternativa mais acessível. Nossa atenção se voltou para outro estressor ambiental: o calor.

Atletas costumam usar curtos períodos de exposição ao calor - geralmente de sete a 14 dias - para se preparar para competir em climas quentes.

Mas queríamos descobrir se uma exposição mais prolongada ao calor, ao longo de quatro a cinco semanas, poderia provocar mudanças fisiológicas parecidas com as observadas na altitude.

Recrutamos um grupo de corredores de endurance bem treinados e pedimos que mantivessem sua rotina normal de treino. O único acréscimo? Cinco banhos quentes por semana durante cinco semanas.

Os banhos não utilizavam equipamentos sofisticados de laboratório. Eram banheiras comuns, de uso doméstico.

A temperatura da água foi mantida em 40°C com a ajuda de um termômetro barato, adicionando-se água quente quando necessário. Cada sessão durava 45 minutos e era feita logo após o treino.

Antes e depois do período de cinco semanas, medimos diversos indicadores da fisiologia da resistência, incluindo volume de glóbulos vermelhos, estrutura cardíaca e consumo máximo de oxigênio (VO₂max) - amplamente considerado o padrão-ouro da aptidão aeróbica.

O que encontramos

Após cinco semanas de banhos quentes regulares, nossos corredores aumentaram de forma significativa o volume de glóbulos vermelhos. Em outras palavras, passaram a ter mais células transportadoras de oxigênio circulando no sangue.

À primeira vista, isso pode parecer surpreendente. Na altitude, a produção de glóbulos vermelhos aumenta porque há menos oxigênio no ar. No calor, a disponibilidade de oxigênio não é reduzida. No entanto, o calor afeta o sangue de outra maneira.

Mesmo após uma única sessão de calor, o plasma - a parte líquida do sangue - se expande.

Essa expansão dilui os glóbulos vermelhos, reduzindo temporariamente a quantidade de oxigênio transportada no sangue.

O organismo percebe essa alteração e responde produzindo mais glóbulos vermelhos para restabelecer o equilíbrio.

Com o tempo, isso resulta tanto em maior volume plasmático quanto em mais glóbulos vermelhos no total - ou seja, mais sangue e maior capacidade de transportar oxigênio.

Também observamos mudanças no coração. Sabe-se que o treino de endurance aumenta a principal câmara de bombeamento do coração, o ventrículo esquerdo, permitindo que ele ejete mais sangue a cada batimento.

Após a intervenção com calor, o volume dessa câmara aumentou ainda mais. O sangue adicional gerado pela exposição ao calor provavelmente contribuiu para essa expansão.

Em conjunto, essas alterações melhoraram a capacidade aeróbica. Em média, o VO₂max dos corredores aumentou cerca de 4%, e eles conseguiram atingir velocidades mais altas em testes máximos na esteira.

Embora medidas de laboratório não sejam o mesmo que resultados em prova, melhorias dessa magnitude são relevantes para atletas treinados, especialmente porque esses ganhos ocorreram sem aumento da intensidade ou do volume de treino.

Por que isso importa para o treinamento de maratona

Para corredores e treinadores, as implicações são interessantes.

Primeiro, a exposição ao calor pode oferecer uma forma de baixo impacto de provocar adaptações benéficas no corpo sem o desgaste adicional de mais exercício. Aumentar quilometragem ou intensidade sempre traz algum risco de lesão.

Os banhos quentes, por outro lado, impõem estresse ao sistema cardiovascular sem aumentar o impacto sobre músculos e articulações.

Em segundo lugar, essa estratégia é relativamente acessível. A maioria das pessoas tem acesso a uma banheira, então, em comparação com camps de altitude, os custos financeiros e ambientais são mínimos.

Isso abre a possibilidade de um acesso mais igualitário a estratégias de treino que melhoram o desempenho - e que são totalmente legais.

Como em toda pesquisa, há limitações. Nosso estudo utilizou um protocolo específico: água a 40°C, 45 minutos por sessão, cinco vezes por semana, durante cinco semanas. Ainda não sabemos se sessões mais curtas, temperaturas mais baixas ou outras fontes de calor - como salas de vapor ou saunas - produziriam os mesmos efeitos.

Também há questões de segurança. A exposição prolongada ao calor pode aumentar o risco de desidratação, tontura e doenças relacionadas ao calor.

Qualquer pessoa que tente uma abordagem semelhante deve garantir hidratação adequada, evitar superaquecimento e realizar as sessões com supervisão apropriada.

Pessoas com condições de saúde preexistentes devem buscar orientação médica antes de tentar esse tipo de protocolo.

Por fim, medimos marcadores fisiológicos e desempenho na esteira, e não tempos reais de maratona. Embora melhoras no VO₂max estejam fortemente associadas ao desempenho em provas de resistência, estudos futuros ainda precisarão confirmar como essas mudanças se traduzem em competições reais.

Ainda assim, nossos achados sugerem que ganhos de desempenho nem sempre exigem mais quilômetros ou viagens internacionais. Às vezes, a adaptação pode ser estimulada de maneiras surpreendentemente simples.

Para maratonistas em busca de uma forma prática de complementar o treinamento, a exposição passiva ao calor pode representar uma ferramenta surpreendentemente simples e que vale a pena explorar.

Mike Stembridge, Professor de Fisiologia Cardiovascular e Ambiental da Cardiff School of Sport & Health Sciences, Cardiff Metropolitan University, e Elliott Jenkins, doutorando em Fisiologia do Exercício e Ambiental, Cardiff Metropolitan University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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