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Remédios para emagrecer podem ajudar a proteger o cérebro contra o Alzheimer.

Pesquisadora em laboratório analisando modelo iluminado de cérebro com imagens cerebrais ao fundo.

A ideia de que um remédio comum para emagrecimento também poderia ajudar a proteger o cérebro parece estranha à primeira vista. Ainda assim, é exatamente essa possibilidade que cientistas estão investigando agora.

Medicamentos como Ozempic e Wegovy já mudaram a forma como muita gente lida com diabetes e obesidade. O que pesquisadores tentam entender, neste momento, é se esses mesmos fármacos também podem interferir em doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Uma revisão recente colocou essa pergunta no centro do debate. Os cientistas analisaram um grande conjunto de estudos sobre os agonistas do receptor GLP-1, a classe de medicamentos por trás desses tratamentos. A intenção era direta: verificar se esses fármacos conseguem diminuir o acúmulo de proteínas nocivas associado à doença de Alzheimer.

“Esta nova revisão oferece uma das análises mais abrangentes até agora sobre como os medicamentos GLP-1 interagem com os mecanismos subjacentes do Alzheimer”, afirmou o Dr. Simon Cork, autor principal do estudo na School of Medicine da Anglia Ruskin University.

Doença de Alzheimer atinge milhões

A doença de Alzheimer segue afetando milhões de pessoas no mundo. As opções terapêuticas disponíveis hoje conseguem apenas aliviar sintomas por um período limitado; elas não interrompem a progressão da doença.

Dois tipos de proteína têm papel central no quadro. A beta-amyloid (beta-amiloide) forma placas pegajosas do lado de fora das células do cérebro. Já a tau se organiza em emaranhados dentro dessas células.

Essas alterações começam anos antes de aparecerem sinais claros de perda de memória. Há muito tempo, pesquisadores tentam reduzir ou evitar o acúmulo dessas proteínas, mas os resultados obtidos até aqui têm sido restritos.

Por que remédios para diabetes entram na discussão

O GLP-1 é um hormônio natural liberado após as refeições. Ele ajuda a regular a glicose no sangue e também influencia o apetite. A indústria desenvolveu versões mais duradouras desse hormônio para tratar diabetes e obesidade.

Mais tarde, cientistas identificaram receptores de GLP-1 no cérebro, com destaque para o hippocampus (hipocampo), região fundamental para a memória. Em estudos com animais, a retirada desses receptores prejudicou a capacidade de aprendizagem.

Isso levou a uma hipótese importante: talvez esses medicamentos impactem a saúde cerebral, e não apenas o metabolismo.

Evidências fortes em laboratório para GLP-1 e Alzheimer

A revisão concentrou-se em 30 estudos de laboratório e em dois ensaios clínicos. No conjunto, a maioria dos resultados laboratoriais apontou para a mesma direção.

Em grande parte dos estudos, a liraglutide reduziu beta-amyloid e, de forma consistente, diminuiu níveis de tau. A dulaglutide também reduziu esses marcadores e, em camundongos, trouxe melhora de memória.

A semaglutide apresentou efeitos semelhantes em diversos modelos. Já a exenatide mostrou resultados mistos, porém majoritariamente favoráveis.

No geral, os animais tratados exibiram menor acúmulo de proteínas tóxicas. Esse padrão é difícil de desconsiderar.

Nem todos os medicamentos se comportaram da mesma maneira. A tirzepatide, um fármaco mais recente, apareceu com resultados mais fracos. Em um dos estudos, ela não reduziu proteínas nocivas na maior parte das áreas cerebrais avaliadas.

Em alguns cenários, a tirzepatide chegou a aumentar níveis de placas em camundongos machos. Isso reforça para os pesquisadores que, mesmo dentro da mesma classe, os medicamentos podem agir de forma diferente - e cada um precisa ser investigado com cuidado.

Diferenças entre sexos aparecem nos resultados

Alguns estudos indicaram distinções claras entre machos e fêmeas. Em um experimento, a semaglutide reduziu amiloide apenas em camundongos fêmeas. A tirzepatide mostrou efeitos negativos principalmente em machos.

Essas observações se alinham a padrões mais amplos já vistos em respostas de emagrecimento. Hormônios podem influenciar o funcionamento desses fármacos. Por isso, pesquisas futuras talvez precisem analisar homens e mulheres separadamente.

Embora estudos em animais ofereçam pistas valiosas, os dados em humanos são decisivos. Até agora, o cenário é inconsistente.

Em um ensaio clínico, a liraglutide não diminuiu os níveis de amiloide em pacientes com Alzheimer. Em algumas regiões, os níveis até subiram levemente. Ainda assim, o uso de glicose pelo cérebro permaneceu estável - algo que costuma cair na doença.

Outro ensaio testou a exenatide. Não houve mudança em amiloide ou tau no líquido cefalorraquidiano. Porém, ocorreu redução de amiloide dentro de pequenas partículas celulares, o que pode refletir alterações no interior das células do cérebro. Esse estudo foi encerrado antes do previsto por falta de financiamento.

Possíveis mecanismos no cérebro

Ensaios grandes mais recentes adicionaram informações. A semaglutide oral não desacelerou o declínio cognitivo em pacientes. Mesmo assim, ela reduziu marcadores ligados ao Alzheimer, incluindo tau e inflamação.

Ao mesmo tempo, estudos com grandes bases de dados apontaram um padrão: pessoas com diabetes que usam esses medicamentos desenvolvem demência com menos frequência do que outras. Isso sugere um possível efeito protetor ao longo do tempo.

Ainda existe debate sobre como esses fármacos atuam no cérebro. Alguns podem atravessar para o tecido cerebral, enquanto outros talvez ajam de forma indireta.

Uma das rotas envolve a BACE1, enzima que contribui para a produção de beta-amyloid. Os medicamentos GLP-1 parecem reduzir a atividade dessa enzima. Outra via importante é a insulin signaling (sinalização de insulina). O cérebro pode desenvolver resistência à insulina, o que afeta a regulação de tau. Melhorar esse sistema pode ajudar a limitar danos.

“Nosso estudo destaca várias vias biológicas pelas quais os medicamentos GLP-1 podem influenciar o Alzheimer, incluindo a redução da inflamação, a melhora da sinalização de insulina no cérebro e a alteração de enzimas envolvidas na produção de amiloide-beta”, disse o Dr. Cork.

Esses medicamentos também favorecem a saúde do coração e dos vasos sanguíneos. Uma circulação melhor sustenta a função cerebral ao longo do tempo. Além disso, eles reduzem a inflamação no organismo, o que pode contribuir para a proteção das células cerebrais.

Prevenção pode ser mais relevante do que tratamento

Uma ideia central vem ganhando força: esses medicamentos talvez funcionem melhor antes do início dos sintomas do Alzheimer.

A doença progride lentamente por muitos anos. Quando a perda de memória se torna evidente, o dano já costuma estar bastante disseminado. Reduzir o acúmulo de proteínas em fases iniciais pode ter um impacto maior.

“Embora ainda faltem estudos em humanos demonstrando impacto no declínio cognitivo, as evidências atuais apontam para esses medicamentos terem um efeito preventivo, e não em pacientes com comprometimento cognitivo já estabelecido”, observou o Dr. Cork.

Limitações do estudo e próximos passos da pesquisa

Até aqui, as evidências são animadoras, mas têm limitações. Em laboratório, os estudos sustentam com força a ideia de que medicamentos GLP-1 diminuem proteínas nocivas. Em humanos, há sinais de mudanças biológicas, porém sem melhora cognitiva clara.

Agora, são necessários ensaios maiores e mais longos. E eles devem priorizar pessoas em risco, não apenas indivíduos que já receberam diagnóstico.

“Com mais de três quartos dos estudos pré-clínicos mostrando reduções em amiloide-beta ou tau, e sinais iniciais surgindo em estudos com humanos, os medicamentos GLP-1 permanecem fortes candidatos para futuros ensaios de prevenção do Alzheimer”, acrescentou o Dr. Cork.

“Ensaios clínicos maiores e em estágios iniciais agora são necessários para determinar se esses sinais promissores realmente se traduzem em benefícios tangíveis para os pacientes.”

Essa linha de pesquisa ainda não oferece uma cura. Porém, abre um caminho novo. Esses medicamentos já existem e são usados por milhões de pessoas, o que torna seu estudo mais viável do que o de terapias experimentais completamente novas.

A possibilidade de um medicamento para perda de peso também ajudar a preservar a memória acrescenta uma nova dimensão à pesquisa em neurociência. A próxima década deve esclarecer se essa ligação realmente se confirma.

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