O comércio de animais silvestres atravessa o mundo todos os dias. Parte dessas transacções acontece dentro da lei. Outra parte segue por rotas clandestinas, longe dos holofotes e quase nunca vira notícia.
No fim do caminho, esses animais acabam como bichos de estimação, alimento ou matéria-prima para a medicina tradicional. Trata-se de um negócio gigantesco, que movimenta milhares de milhões e continua a crescer.
Só que existe um problema menos visível que viaja junto com esse mercado. Quando animais são capturados, transportados e vendidos, não chegam “sozinhos”. Eles carregam bactérias, vírus e parasitas - e esses microrganismos nem sempre ficam restritos ao lugar de origem.
Um estudo recente deixa claro o tamanho do risco. Segundo os investigadores, animais envolvidos no comércio têm muito mais probabilidade de partilhar doenças com seres humanos do que aqueles que permanecem na natureza.
E não se trata apenas de episódios raros e isolados. O perigo tende a acumular-se ao longo do tempo e a atravessar fronteiras de formas difíceis de rastrear.
O que os dados revelam sobre o comércio de animais silvestres
Ao cruzar quatro décadas de registos de comércio e dados sobre doenças, a equipa de investigação identificou um padrão consistente. Mamíferos comercializados têm 1,5 vezes mais probabilidade de partilhar agentes infecciosos com humanos do que espécies que não entram no circuito de comércio.
O estudo foi coassinado pela professora Meredith Gore, da Universidade de Maryland, em colaboração com cientistas da Universidade de Lausanne, na Suíça.
Os números também mostram um detalhe importante: o risco aumenta conforme a espécie permanece no sistema de comércio.
Em média, uma espécie passa a partilhar mais um patógeno com humanos a cada dez anos em que continua “em circulação”. Esse crescimento gradual cria mais oportunidades para que doenças saltem entre espécies.
O risco por trás dos animais exóticos de estimação
Basta percorrer as redes sociais para entender por que a procura disparou. Vídeos de lontras de mãos dadas ou de sugar gliders planando dentro de casa fazem os animais exóticos parecerem inofensivos - até fofos.
Essa procura alimenta um mercado que avança para dentro de florestas e habitats remotos.
O cenário piora quando os animais são vendidos vivos ou circulam no comércio ilegal. Nesses casos, são comuns condições apertadas, stress e falta de higiene - uma combinação que facilita a disseminação de patógenos.
Já existe um exemplo concreto. Um surto de varíola dos macacos fora da África foi associado ao comércio de animais de estimação que envolvia ratos-gigantes-da-Gâmbia e esquilos-de-corda. O episódio ilustrou como uma doença localizada pode atravessar continentes com rapidez.
“Illegal wildlife trade enables novel opportunities for pathogens like these to make incursions at global scales, crossing boundaries that were previously barriers to disease movement and linking urban and rural places and their residents in new ways,” disse Gore.
Onde a exposição realmente acontece
Muita gente imagina que o risco começa quando alguém compra um produto de origem silvestre. Mas não é bem assim. A maior ameaça costuma surgir antes, nas primeiras etapas da cadeia.
Caçadores, transportadores e comerciantes lidam com os animais directamente. Estão sujeitos a cortes, mordidas e contacto próximo com fluidos corporais. É aí que muitas infecções começam.
“É importante compreender que a probabilidade de ser infectado ao tocar um piano com teclas de marfim ou ao usar pele é quase inexistente”, afirmou o autor principal do estudo, Jérôme Gilpert.
“O problema está no início da cadeia: alguém precisou caçar o animal, esfolá-lo, transportá-lo.”
Ainda assim, quem compra não fica isento de responsabilidade. As escolhas do consumidor mantêm o sistema a funcionar.
“Mesmo que o perigo não seja imediato, as nossas escolhas de consumo alimentam indirectamente a transmissão de patógenos para os humanos”, disse Cleo Bertelsmeier, líder da equipa de investigação na Universidade de Lausanne.
Uma lacuna crescente na saúde global
Durante muito tempo, o comércio de vida selvagem foi regulado sobretudo para proteger espécies ameaçadas. Acordos internacionais concentram-se em evitar a extinção e preservar a biodiversidade. Já o risco de doenças não recebeu o mesmo nível de atenção.
Essa diferença pesa ainda mais hoje. Com a redução de habitats e a expansão da actividade humana, pessoas e animais entram em contacto com maior frequência. Ao somar o comércio global a esse quadro, os patógenos ganham novas rotas para se deslocar.
Os investigadores defendem que é necessário reforçar a monitorização. Acompanhar doenças em animais silvestres e em produtos de origem animal pode ajudar a identificar ameaças antes que se espalhem de forma ampla.
Actualmente, muitos modelos usados para prever surtos não incorporam totalmente os padrões de comércio, em especial os ilegais.
“Os modelos que prevêem o risco ou a disseminação de patógenos podem estar errados se não levarem em conta a dinâmica do comércio, particularmente a ilegal”, disse Gore.
“Esse tipo de erro pode levar ao uso ineficiente de recursos limitados para vigilância ou gestão, sobretudo em contextos com poucos recursos.”
O panorama mais amplo por trás do comércio de vida selvagem
O tema vai além de decisões individuais ou de mercados isolados. Ele liga mudança ambiental, perda de espécies e saúde humana num ciclo estreito.
Quando ecossistemas são perturbados, animais deslocam-se ou entram em declínio. O comércio ocupa esse espaço, levando espécies para novos ambientes, onde as doenças tendem a espalhar-se com mais facilidade.
“O comércio de vida selvagem é um vector mecânico de agentes infecciosos que, até agora, recebeu relativamente pouca atenção da comunidade de saúde pública”, disse Gore.
O recado é directo: transportar animais não é apenas uma preocupação de conservação - é uma questão de saúde pública que afecta toda a sociedade.
O comércio global de animais silvestres não dá sinais de desaceleração. Mas compreender os riscos é um passo para diminuir as chances do próximo surto.
O estudo completo foi publicado na revista Science.
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