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Viagem no tempo: Visitar o futuro é emocionante, mas pode ter consequências negativas.

Jovem estudando com tablet, caderno e ampulheta, olhando pela janela para cidade com arranha-céus e drone.

As pessoas passam um tempo surpreendente “morando” no futuro - imaginando o que pode acontecer, traçando os próximos passos e, muitas vezes, já se preparando para o que poderia dar errado.

Essa capacidade costuma nos ajudar a nos antecipar, decidir com mais segurança e diminuir a incerteza no dia a dia.

Só que pesquisas recentes indicam que esse pensamento voltado para o amanhã nem sempre joga a nosso favor. O mesmo hábito mental que facilita o planeamento pode virar uma espiral de stress quando o cérebro se apoia demais em cenários de pior caso.

Em vez de ser apenas um sinal de inteligência ou disciplina, cientistas passaram a encarar o pensamento sobre o futuro como um sistema dinâmico: dependendo de como se desenrola, ele pode sustentar o bem-estar ou, de modo silencioso, aumentar a ansiedade.

Onde o pensamento sobre o futuro começa

Em momentos comuns de pressão, escolha e incerteza, a mente pode voltar repetidamente a “amanhãs” imaginados antes que qualquer coisa mude no mundo real.

Na Ruhr University Bochum, na Alemanha (RUB), Ekrem Dere associou essa repetição do pensamento sobre o futuro a uma resposta de recompensa dentro do cérebro.

Segundo Dere, quando os planos futuros parecem promissores, eles não apenas influenciam o comportamento - também ficam mais fáceis de lembrar e mais propensos a reaparecer.

Esse ciclo de retroalimentação ajuda a explicar a observação, mas também levanta uma pergunta maior: como uma recompensa imaginada se transforma em um hábito mental duradouro?

Um plano imaginado para o futuro: viagem mental no tempo

Para descrever esse tipo de ensaio do amanhã, Dere usou o termo viagem mental no tempo - o ato de se imaginar em outro momento.

Em vez de depender de um resultado real, a teoria sugere que um plano imaginado e útil pode gerar a própria recompensa de forma rápida.

Ele estruturou essa ideia com base no condicionamento operante, no qual um comportamento se fortalece após recompensa e enfraquece após punição. Quando a sensação recompensadora aparece com frequência suficiente, planejar pode deixar de parecer esforço e passar a soar como rotina.

Por trás da proposta de Dere está o sistema dopaminérgico mesolímbico, uma rede de recompensa que ajuda a marcar experiências como “valiosas de repetir”.

Trabalhos anteriores observaram que aumentar a dopamina enquanto pessoas imaginavam eventos positivos da vida fazia com que essas cenas futuras parecessem mais prazerosas depois.

Isso não comprova, por si só, a nova teoria, mas torna o mecanismo de recompensa sugerido bem menos especulativo.

Se o sucesso imaginado for capaz de acionar a mesma química do sucesso real, então fica mais fácil entender por que o pensamento sobre o futuro pode se repetir.

Como medo e esperança entram no processo

Os futuros agradáveis são apenas metade do modelo de Dere, porque diminuir ameaças também pode ensinar a mente a ensaiar o amanhã.

Imaginar uma saída para situações de vergonha, conflito ou perigo pode trazer alívio imediato, mesmo antes de qualquer ação acontecer.

Essa queda de tensão também conta como reforço, o que significa que o medo pode fortalecer o planeamento do mesmo jeito que a esperança. O mesmo mecanismo que favorece a preparação para dificuldades pode, sob pressão, se cristalizar em sobrepreparação crónica.

O problema começa quando as cenas futuras deixam de orientar ações e passam a alimentar continuamente pavor, vergonha ou desamparo.

Em contextos clínicos, Dere alertou que previsões negativas repetidas podem reciclar dores antigas, transformando-as em expectativas novas.

Uma revisão de 2022 constatou que a ansiedade frequentemente vem acompanhada de pensamentos sobre o futuro menos detalhados e mais ameaçadores. Quando essas projeções viram hábito, a mesma habilidade que deveria preparar as pessoas pode, em vez disso, ajudar a manter um transtorno ativo.

Como as pessoas pensam sobre o amanhã

Sob essa lente, a previsão do futuro deixa de parecer uma virtude simples e passa a se comportar como um hábito pessoal.

Dere descreve um contínuo entre viajantes estratégicos, que planejam com frequência, e viajantes ocasionais, que em geral improvisam até os problemas surgirem.

Ao longo desse contínuo, quem planeja muito recorre ao ensaio do futuro repetidamente, enquanto quem planeja pouco só lança mão disso de vez em quando. Essa distinção importa porque a frequência - e não apenas a capacidade bruta - pode determinar o quanto essa competência molda a vida de alguém.

Evidências do quotidiano já sugerem que pensar no futuro é comum, e não raro, em mentes saudáveis. Um estudo de amostragem de experiências constatou que pensamentos sobre o futuro aparecem mais vezes do que pensamentos sobre o passado.

Em outro estudo com adolescentes, 1.543 estudantes apresentaram média de 5.28 em uma medida de sete pontos de pensamento focado no futuro.

Esses números reforçam a ideia central de Dere: muitas pessoas já usam essa habilidade exigente com frequência suficiente para que os hábitos façam diferença.

Medindo o pensamento sobre o futuro

Dere não ficou apenas na descrição do padrão - ele também propôs uma maneira clara de colocá-lo à prova. A previsão dele é que pessoas que pensam no futuro com mais frequência devem apresentar uma resposta mais intensa em circuitos de recompensa enquanto elaboram planos úteis.

Um exame chamado ressonância magnética funcional (fMRI) - um método de imagem cerebral que acompanha mudanças no fluxo sanguíneo - poderia verificar se essa resposta aparece de modo consistente.

Um sinal forte não resolveria todas as dúvidas, mas transformaria uma ideia ampla em algo mensurável.

Repensando como planejamos com antecedência

Como futuros imaginados podem tanto ajudar quanto prejudicar, a teoria ultrapassa o campo da personalidade e toca também o tratamento.

“Os benefícios da viagem mental no tempo orientada para o futuro são claros. Ela nos permite ser mais bem-sucedidos e menos stressados no dia a dia, pois o futuro se torna mais previsível e, assim, mais fácil de planejar”, disse Dere.

Treinar pessoas para reconhecer a catastrofização - a tendência de prever o pior desfecho possível - poderia ajudar a redirecionar o pensamento sobre o futuro, embora essa abordagem ainda precise ser testada.

A pesquisa enquadra o planeamento antecipado como algo além de inteligência ou disciplina, descrevendo-o como um sistema de feedback capaz de se reforçar sozinho.

Essa perspectiva abre caminho para melhores testes cerebrais, terapias mais direcionadas e uma linha mais nítida entre a previsão útil e o medo que sabota a própria pessoa.

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